
Sabemos que o Movimento Espírita Brasileiro (MEB) mantém um formato profundamente religioso. As palestras, em que uma pessoa se coloca à frente para expor um tema evangélico sem espaço para questionamentos, acabam se assemelhando muito aos sermões de pastores. Trata-se de um modelo professoral, vertical e pouco participativo.
O problema é que esse formato já não dialoga com o presente. Os dados do último IBGE são reveladores: o número de pessoas que se declaram espíritas caiu de 2,2% para 1,8% da população. É evidente que não se pode atribuir essa queda apenas a esse modelo, mas é impossível ignorar que, há décadas, ele permanece praticamente inalterado.
Com a expansão da internet, muitas casas espíritas passaram a transmitir suas palestras em canais de vídeo. Imaginava-se, assim, ampliar o alcance. No entanto, o que mudou foi apenas o meio — não a prática. Continuamos com vídeos longos, roteiros engessados, linguagem pouco flexível e nenhuma interação com o público. O resultado é previsível: mesmo quando há um primeiro acesso, não há continuidade. As pessoas perdem o interesse e seguem adiante.
Nesse cenário, multiplicam-se grupos, coletivos e iniciativas independentes fora das casas espíritas. Eles surgem justamente daqueles que se sentiram saturados no modelo tradicional. Nesses espaços, o Espiritismo é discutido a partir de temáticas que dialogam com as inquietações da sociedade contemporânea — homoafetividade, racismo, preconceitos, política, entre outras questões urgentes que raramente são tratadas nas reuniões públicas, onde quase sempre o foco exclusivo é o Evangelho.
Algumas casas, é verdade, já começaram a se abrir a mudanças. Ainda timidamente, trazem temas considerados “menos evangélicos”. A experiência mostra resultados positivos: onde antes o público era majoritariamente idoso, hoje se vê a presença crescente de jovens e adultos. A participação também aumentou.
No início, houve dificuldades — desde a escassez de palestrantes preparados até certa resistência interna. Mas, com insistência, dois movimentos se consolidaram: novas vozes surgiram para falar desses temas e antigos expositores se dispuseram a aprender e se atualizar. Mesmo que o formato da palestra e da transmissão permaneça o mesmo, a diversificação temática já trouxe renovação e ampliou o público.
Com certeza, trata-se de uma grande mudança. Mas ainda está longe de ser o suficiente para transformar a sociedade. O Espiritismo precisa desenvolver-se, contextualizar-se e adequar-se aos conhecimentos atuais. Não basta repetir os moldes do século XIX, é preciso dialogar com os avanços do século XXI. Precisamos de pesquisas sérias, em todas as áreas onde o Espiritismo é capaz de se expressar: da psicologia às ciências sociais, da filosofia à educação, da ética às questões ambientais.
Esse esforço de atualização não significa trair a essência da Doutrina, mas sim revivê-la em seu espírito original: o da investigação, do questionamento e da busca pela verdade. Kardec não desejava um Espiritismo estático, fechado em fórmulas prontas; ele propunha uma filosofia viva, aberta ao progresso e em constante diálogo com a ciência e a sociedade. Diante disso, a pergunta se impõe: seria esse o caminho para uma reestruturação real do Espiritismo? Estaríamos, enfim, nos aproximando do ideal de Allan Kardec — o de um Espiritismo capaz de transformar a sociedade pela consciência da vida futura, pela renovação do pensamento coletivo e pela prática efetiva do amor e da fraternidade?
