Jesus é governador da Terra? O que Kardec realmente dizia

A ideia de Jesus como “governador espiritual da Terra” não nasce no Espiritismo de Allan Kardec, mas se infiltra nele por caminhos históricos, culturais e religiosos muito específicos — sobretudo no Brasil. Esse conceito tem origem clara na teologia católica e ganha força dentro do movimento espírita por meio da obra de João Batista Roustaing, marcada por misticismo, revelações mediúnicas pouco criteriosas e graves problemas históricos.

Kardec jamais sustentou essa visão. Para ele, Jesus é o Cristo, um espírito elevadíssimo, modelo moral da humanidade, referência ética universal — mas não um dirigente administrativo do planeta, muito menos um ser que teria criado ou governado a Terra como se fosse um demiurgo. Quando Roustaing publica Os Quatro Evangelhos, repetindo obsessivamente a noção de Jesus como governador espiritual, Kardec percebe o desvio e reage de forma contundente: em A Gênese (1868), rejeita integralmente essa abordagem por ser anticientífica, mística demais e incompatível com o método espírita.

O problema é que o Espiritismo que floresce no Brasil não segue majoritariamente Kardec, mas um Espiritismo moldado pelo imaginário católico, profundamente cristocêntrico e hierarquizado. Nesse contexto, a ideia de um “Jesus governador da Terra” soa confortável, familiar e emocionalmente poderosa. A Federação Espírita Brasileira institucionaliza essa influência, e figuras centrais como Chico Xavier entram no movimento já imersas nessa leitura roustainguista — o que impacta obras como A Caminho da Luz e Brasil, Coração do Mundo.

Com o tempo, mesmo Chico demonstra desconforto com Roustaing e se afasta de suas ideias, mas o estrago simbólico já estava feito: o conceito colou no imaginário espírita brasileiro. Ele passa a ser repetido como dogma informal, apesar de não ter base kardeciana, científica ou universal. E aqui surge o ponto mais delicado: ao afirmar Jesus como governador exclusivo da Terra, o Espiritismo brasileiro flerta com uma visão supremacista, incompatível com um planeta plural, onde a maioria da humanidade não é cristã.

Esse cenário se agrava quando observamos a fragmentação do Espiritismo no Brasil. Existem hoje múltiplas correntes — kardecistas de raiz, progressistas, laicos, chiquistas, divaldistas, místico-esotéricas, nova era, espiritualismo de prosperidade, umbanda espírita, xamanismo espiritualizado, entre outras. Muitas delas, direta ou indiretamente, absorvem a noção de Jesus governador, mesmo quando afirmam seguir Kardec. Trata-se menos de coerência doutrinária e mais de disputa simbólica de poder religioso.

A pergunta “é possível desroustainguizar o Espiritismo brasileiro?” encontra uma resposta dura, porém realista: não como retorno ao passado. Fenômenos religiosos são sócio-históricos. Eles não voltam atrás. Sistemas complexos não se simplificam; eles se diversificam. O Espiritismo brasileiro não será “corrigido”, porque ele não é um erro técnico — é o resultado de escolhas culturais coletivas feitas ao longo de mais de um século.

O caminho possível não é eliminar a ideia de Jesus como governador da Terra, mas questioná-la, expô-la, contextualizá-la e relativizá-la. Fortalecer um Espiritismo mais crítico, mais fiel ao método kardeciano e mais alinhado com a ciência pode, aos poucos, enfraquecer esse imaginário hierárquico e exclusivista. Não por imposição, mas por influência.

No fundo, a grande contradição é esta: um Espiritismo que se diz progressista, racional e universal, mas insiste numa ideia que centraliza a espiritualidade do planeta numa única figura religiosa específica. Se há algo realmente kardeciano a resgatar, não é um Jesus governador, e sim um Jesus educador moral da humanidade, sem tronos cósmicos, sem cargos espirituais, sem supremacia — apenas exemplo.